Revista Junguiana 22

Revista Junguiana 22 -Espiritualidade – Esgotada

revista junguiana 22O Cientista Criador

Entrevista Dr. Carlos Byington
Liliana Liviano Wahba

 

A Dimensão Espiritual na Atualidade

Ana Lia B. Aufranc

O artigo parte do questionamento da necessidade ou não da dimensão espiritual no mundo em que vivemos. Revê a perspectiva freudiana, em relação às origens psíquicas da religião. Compara o paradigma newtoniano com o da física quântica, tecendo um paralelo entre a perspectiva freudiana e a junguiana, no que tange à vivência religiosa. Retoma o papel da razão e da ciência no desenvolvimento da consciência coletiva bem como elabora a questão do resgate da dimensão espiritual para o equilíbrio psíquico. Aborda a vivência mística do todo presente na origem de todas as religiões; discute essa vivência para além das categorias de espaço e de tempo como também as experiências paranormais presentes no desenvolvimento espiritual. Reflete sobre a inflação egóica, a persona tomando o lugar do Self, o consumismo e o deslocamento da procura do sagrado apenas para o pólo material da existência, como conseqüncias da repressão da dimensão espiritual em nossa cultura. Finaliza propondo um novo equilíbrio entre o espírito, a matéria e a razão como o desafio que se faz presente na atualidade.

 

Religião e Participação Neste Mundo

André Mendes e Laura Villares de Freitas

O artigo apresenta a diferenciação realizada por Jung entre religião e confissão; a primeira, caracterizada pela experiência individual arquetípica do numinoso – imprevisível e incontrolável pela consciência – e a segunda, descrita como a formalização e institucionalização dessa experiência, enfatizando seu aspecto coletivo. Procuramos descrever como a confissão – nas ocasiões em que promove a efetiva participação do homem, colocando-se a serviço do processo de individuação – torna-se religião viva e adquire uma forte conotação sócio-histórica, ora contrapondo-se a ocorrências seculares, ora precisando ativamente ligar-se ao fluxo e ao movimento histórico de sua época. Finalizando, buscamos apresentar a concepção de que o exercício da religião depende de uma atitude rigorosa e dirigida ao trabalho com as imagens arquetípicas.

Espiritualidade e Cura – Conexão da Psique e da Matéria

Marfiza Ramalho Reis

Considerando a relação psique-soma, a autora tenta compreender o fenômeno da cura e da saúde em diferentes culturas e abordagens teóricas. Procura mostrar como, através dos tempos, práticas e rituais curativos foram desenvolvidos para lidar com a doença e como as culturas têm oscilado entre o reducionismo e o holismo nas práticas médicas. Ressalta a perspectiva holística, conhecida como “sistêmica”, para mostrar que a saúde envolve aspectos físicos, psicológicos e sociais. Em sintonia com a psicologia analítica, conclui que a doença deve fornecer sentido (telos) e que a cura é alcançada quando, no processo de individuação, o elemento espiritual for incluído.

 

A Sombra do Anti-Semitismo

Liliana Liviano Wahba

O artigo traz uma reflexão sobre os fatos ocorridos na Alemanha afetando a Sociedade Médica Geral de Psicoterapia e as atitudes, declarações e escritos de Jung nos anos pré; e pós-Segunda Guerra. Procura levantar os fatos que ocasionaram as acusações contra Jung devido à suspeita de anti-semitismo. São abordados depoimentos de analistas junguianos que conviveram com Jung e de analistas atuais que escreveram sobre essa questão. O artigo deixa de início em destaque algumas ambigüidades apontadas em relação a Jung para que o leitor teça suas próprias avaliações, assinalando também alguns comentários e conexões entre fatos. No final, a autora analisa símbolos provenientes de sonhos e de imagens de Jung, concluindo que houve um grave erro naqueles anos que teria sido registrado no inconsciente dele.

 

Jung à Época do Nazismo – Um Capítulo na História das Instituições Psiquiátricas

Luiz Paulo Grinberg

O autor faz uma revisão a respeito da controversa discussão em torno do suposto antisemitismo de Jung, fruto principalmente de sua presidência da Sociedade Médica Geral para a Psicoterapia durante a Alemanha nazista (1933-1938). Os argumentos de seus detratores costumam surgir descontextualizados de seu pano de fundo histórico, principalmente com respeito ao antigo ressentimento em relação ao pai da psicanálise. Por outro lado, devemos encarar o fato de que Jung possa ter sido um tanto quanto naive ao emitir formulações sobre uma “psicologia judaica”; em plena época de ascensão do nacional-socialismo e da perseguição aos judeus.

 

Caminhos da Humanização

Maria Zélia de Alvarenga

A autora discorre sobre um pressuposto de que os arquétipos, ao estruturarem consciência, seguem caminhos de humanização traduzidos pelas amplificações de cada mito. Cada figura mítica constituída por histórias complexas (mitemas e mitologemas) e as relações vividas pelo divino (lutas, confrontos, casamentos, filhos e filhas gerados, inventividades e outras) interferem na constituição de sua “personalidade”. Afirma que o arquétipo, ao realizar o caminho da humanização, estruturando consciência, segue uma ou outra variante mítica.

 

As “opções” tomadas podem ser criativas ou não e podem ser mais bem compreendidas com a amplificação mítica, dentro desse contexto. O analista poderá antever possíveis caminhos anunciados no material do cliente. O texto propõe leitura simbólica de Zeus/Hades/Posídon como aspectos de uma mesma “identidade”; arquetípica e discorre sobre suas interações com os demais personagens da mítica. O símbolo dor, presente no mito de Hades e Quíron, constitui-se como elemento no estabelecimento da consciência; a originalidade dos castigos impostos por Hades, entendidos como expressão de psicopatologia, como é o caso de Sísifo.

 

Glauber e Javé na Terra do Sol

Raissa Pala Veras

Este artigo explora o paralelo entre a história bíblica de Jó e o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, do diretor Glauber Rocha, em uma leitura simbólica das relações do homem com a divindade. Na experiência de Jó, o sofrimento, a perda e as provações levam ao conhecimento do divino e à expansão da consciência. Ao mesmo tempo, a expressão divina se humaniza, para sua vindoura encarnação em Cristo. Em Deus e o Diabo, o protagonista Manuel, contudo, não consegue elaborar psiquicamente a submissão a um Deus tirânico, dominador, manifestado nas figuras sertanejas do “beato” e do “cangaceiro” Além disso, Glauber reproduz, de certo modo, na direção de seus atores, a relação entre Javé e Jó.

 

Arte e Psicopatologia: A Defesa Sadomasoquista e a Transcendência do Mal

Carlos Amadeu Botelho Byington

O autor, dentro do referencial teórico da psicologia simbólica junguiana, estuda a relação da arte com a psicopatologia e situa o sadomasoquismo como a defesa central dos relacionamentos humanos. Postula a sua formação através da fixação das identificações parentais, que inclui o vínculo entre mãe e pai e as reações do ego a eles. Essa fixação envolve a interação da função estruturante do amor (afeto e agressividade) com a função estruturante do poder (obediência e comando). O autor ilustra esses conceitos na vida e na obra de Franz Kafka, descrevendo a identificação do seu ego na consciência dominantemente com o afeto delicado, sensível e introvertido do seu complexo materno positivo, e do seu ego na sombra com a passividade covarde e masoquista do seu complexo materno negativo. Descreve também a identificação do outro na consciência dominantemente com a exuberância vital, a produtividade e a dedicação ao trabalho e à família do seu complexo paterno positivo e do seu outro na sombra com a agressividade egocêntrica, sádica, prepotente e extrovertida do seu complexo paterno negativo. A resultante dessa grave fixação foi uma relação sadomasoquista da polaridade ego-outro na sua personalidade, claramente expressa na sua famosa Carta ao pai e na maior parte de sua obra, inclusive na sua ordem para que fosse destruída junto com seus diários. O autor conclui mencionando alguns aspectos da relação entre arte e psicopatologia e postula que o arquétipo central abrange os complexos fixados do sistema defensivo da sombra, mas busca ultrapassá-los na autorealização criativa do processo de individuação. No caso de Kafka, isso não aconteceu no Self individual, mas realizou-se vigorosamente através da imagem arquetípica da ressurreição no Self cultural.

 

Sonhos – Uma Encruzilhada na Prática Clínica

Christian Gaillard

O autor inicia o artigo com a sugestão de que uma boa maneira de avaliar as diferenças entre as diversas tradições e escolas do movimento psicanalítico é observar seus modos respectivos de trabalhar com sonhos. No intuito de apresentar sua própria abordagem, o autor cita um dos sonhos de um paciente seu para demonstrar que, sob a aparência de satisfação de desejo, um sonho pode ser muito perturbador, colocando-nos de frente com aspectos nossos que são dificeis de reconhecer ou que nos instigam. Ele mostra que os sonhos são reveladores. Isso ocorre quando eles são analisados precisamente de acordo com a vida atual do sonhador, a história de sua vida – incluindo as dimensões transgeracionais -, a história do relacionamento da transferência e de acordo com a evolução da vida simbólica do sonhador em questão.