Paixão de perpétua – Uma interpretação psicológica de suas visões

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Paixão de perpétua – Uma interpretação psicológica de suas visões

paixao-de-perpetua-uma-interpretacao-psicologica-de-suas-visoes-1Sylvia Mello Silva Baptista
Psicóloga, analista junguiana, membro da SBPA

PAIXÃO DE PERPÉTUA

Uma Interpretação Psicológica de suas Visões

Marie-Louise von Franz

Tradução e Edição de Inácio Cunha, Belo Horizonte, 2009

Atenção! Chega até nós um pequeno livro que envolveu um grande esforço, o qual esclarecerei ao final destas colocações.

A autora, Marie-Louise von Franz, faz uso, como sempre, brilhante, do seu pensamento extrovertido, para nos colocar a par de um trabalho de amplificação simbólica primoroso. Há muitas razões para se ler esse texto, e esta é uma delas. O que von Franz viu nas quatro visões ou sonhos de Perpétua (documentadas em Passio Perpetuae et Felicitas por Tertuliano), mártir africana cartaginesa, morta em 203 d.C. ao lado da escrava Felicidade, no reinado do Imperador Severus, foi a possibilidade do registro histórico-simbólico da passagem de um mundo até então pagão, para o cristianismo que recém se instalava. Antes de entrar na interpretação das imagens propriamente ditas, von Franz fala da ortodoxia dos mártires, e nos localiza no contexto da época. Ali, na África do século III de nossa era, a corrente dos Montanistas –fundada por Lucius Montanus e sua “Igreja do Espírito”- se fazia reconhecer.

Traça, portanto, um panorama do coletivo, para depois nos introduzir no âmbito pessoal, onde demonstra o quanto as imagens arquetípicas contidas nas visões deram a Perpétua um “sentimento interno de compreensão acerca de seu destino”, possibilitando-lhe aceitar seu martírio.

Sabemos que os sonhos cumprem, por si só, um importante papel regulatório na psique, e este fato se vê comprovado ali, com a entrega à morte de modo benevolente e solícito. No entanto, é também da nossa vivência prática, enquanto analistas, observar que o símbolo iluminado pela luz da consciência fertiliza o ego e contribui como alimento no processo de individuação. Se von Franz traz à consciência essas visões e compartilha conosco sua compreensão de tal material simbólico, não o faz desacompanhada.

É hora de clarear a referência ao esforço citado acima. Através de Inácio Cunha, analista junguiano, mineiro de Belo Horizonte, esses escritos, originalmente em alemão, e traduzidos do inglês –Spring, 1949-, chegam finalmente até nós. Cabe aqui nosso profundo agradecimento. Sua iniciativa teve o apoio da Stiftung für Jung´sche Psychologie (Fundação para Psicologia Junguiana). Todos sabemos da carência de traduções de qualidade na área da Psicologia – para citar apenas esta nossa esfera de interesse. Isso faz dessa bem cuidada obra um imperativo. Inácio está no livro, como um baixista está numa banda: quase invisível, mas pulsando incessantemente, nas notas de tradução e no zelo esmerado com o corpo do livro. Chamo atenção para o fato, pois se trata de uma iniciativa pessoal e voluntária, como a tomada por Perpétua em sua fé, mas em direção à vida e ao criativo. O livro foi realizado com custos reduzidos para se tornar o mais disponível possível, e pode ser adquirido através de pedidos pelo e-mail inacio@almg.gov.br .

Para que ele não sucumba à inconsciência, é preciso que todos nós ofertemos também nosso quinhão de esforço para deixá-lo vivo e circulante. Eu atesto calorosamente: vale à pena!