Home Noticias MORTE : Um fim indesejado






Abril 2012 Maio 2012 Junho 2012
Se Te Qu Qu Se Do
1 2 3 4 5 6
7 8 9 10 11 12 13
14 15 16 17 18 19 20
21 22 23 24 25 26 27
28 29 30 31


Twitter
SBPA

  São Paulo, 22 de maio de 2012    


MORTE : Um fim indesejado PDF Imprimir E-mail

Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!

Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.

Disse o corvo, ‘Nunca mais’.

(POE, tradução de Fernando Pessoa)

 

A Morte nos é anunciada muito cedo.

Como um corvo que vem predizer o futuro, sabemos ser ela “a única certeza que temos na vida”. Sua chegada é inquestionável. O “nunca mais” repetido por Poe no poema reforça esta certeza.

Um dos significados para a palavra morte é fim ou término. Tentamos desesperadamente burlá-la, esquecê-la, dando um novo sentido a ela. Existem vários exemplos de ditados populares que mostram ser o fim apenas uma passagem para o novo, como se a morte fosse apenas um hiato entre dois ciclos de vida. Se a morte é a única certeza que temos na vida, por que será que não podemos conviver com ela? Por que não podemos fechar cada ciclo de vida como um final, com um adeus e até nunca mais?

Lutamos bravamente para manter a morte o mais longe possível, contudo cada vez que ela se manifesta, levamos um susto. Não nos conformamos com nenhum fim imposto a nós; muitas vezes sentimos como se tivéssemos sido traídos pela vida nos lembrando da finitude. Como no conto “Perdoando Deus” de Clarice Lispector, somos atropelados pela crueza da vida ao nos impor a visão horrenda de um rato ruivo morto à nossa frente. Por mais esperada que seja, é assim que a morte nos é imposta: ela nos é colocada firmemente sem nenhuma chance de escape. É assim, e pronto.

Em pedagogia e nos livros infantis, cada vez mais vem aparecendo a palavra morte, a qual se evitava proferir perto de uma criança, até muito recentemente. Quantas e quantas mentiras contadas às crianças sobre o sumiço do vovô, do cachorrinho amado, do bonequinho que quebrou. Imagine só a criança ouvir a palavra morte? Poderia ser contaminada? Poderia ter algum trauma? O que poderia acontecer? Aos poucos, foi-se percebendo que as crianças lidam muitíssimo melhor com o tema morte do que os adultos. Ao saberem que o cãozinho morreu, ficam tristes, perguntam o que aconteceu com ele e dentro da crença de cada família dão àquele ser morto, um destino. E elas, as crianças, seguem seus caminhos.

Até meados do século passado eram comuns os velórios na casa dos falecidos; por ali passavam os amigos, parentes e familiares mais próximos. O cheiro da vela se misturava ao cheiro da comida e do jardim; após o enterro, todos voltavam para casa e dormiam naquele lugar onde um dia o ente falecido já estivera. O contato com o vazio existia, mas a necessidade de estar longe de qualquer coisa que lembrasse aquela cena do defunto jazendo no caixão, não.

Cada vez mais o assunto morte tem de estar longe, numa assepsia imposta não sei por quem. Chorar a perda nem sempre tem espaço; são tantas as obrigações com o ritual, caixão, flores, local de velório e local de sepultamento, avisos às pessoas, atestados, enfim uma burocracia que não há possibilidade do choro. E ao chegar em casa, tão cansado da maratona, o familiar despenca numa cama e nem consegue sentir a perda. Só na manhã seguinte é que começa a olhar em volta e ver o vazio deixado.

O espaço, inexistente anteriormente, irá ser tomado por sentimentos múltiplos numa tentativa vital de superação e compreensão da dor vivida. Memórias e experiências anteriores serão acionadas, e junto a elas uma torrente de sentimentos irá aparecer: revolta, ira, impotência, culpa... Um mosaico de emoções – muitas vezes antagônicas – será desenhado na alma. Aos poucos, a vivência da perda com todo esplendor de cores, sons e cheiros transformar-se-á, dando espaço, assim, às lembranças. Com elas, a saudade.

Ah, a saudade, um bichinho que nos acalenta ao mesmo tempo em que nos corrói.

A compreensão da morte é um processo solitário, e muitas vezes difícil de ser traduzido em palavras. E como é acalentador quando nos deparamos com um interlocutor que nos fala e nos compreende em nossa dor da perda; é muito confortante poder dividir com outros: sentimo-nos pertencentes.

Algumas formas de arte nos acalentam e nos compreendem na dor da finitude, dando forma a sentimentos confusos. Vários poetas tratam de temas muito delicados como beleza e amor – doloridos também –, além de saudade e morte. Conseguem traduzir a dor que o interlocutor está sentindo como se essa dor fosse universal, fazendo um elo entre pessoas e histórias. Ao juntar vários sentimentos num único poema – a morte da bela mulher amada, por exemplo –, o poeta nos dá a dimensão do sofrimento do homem que ficou para enterrá-la. A vivência de desespero descrita pode dar ao leitor esse lugar de pertencimento, ao mesmo tempo singular, só nosso, e coletivo.

No poema “O Corvo” de Edgar Alan Poe, quando a ave se apresenta e apenas diz “nunca mais“, ela faz uma constatação de que toda possibilidade de reencontro da amada, pelo menos da forma desejada pelo interlocutor, está encerrada. Não há possibilidades, não há reencontro, acabou: tudo aquilo que sonhou... never more! É com essa frieza que a finitude nos impõe um novo modelo

O tema da morte é muito amplo. Temos diversos tipos de morte ao longo da vida: o leque de possibilidades é enorme indo da morte concreta à morte subjetiva. O meu interesse neste texto é abordar a dificuldade que uma parcela significativa das pessoas enfrenta ao se deparar com o fim de uma etapa da vida. Enfrentar a morte como fim e não como um agente transformador. Como, por exemplo, enfrentar o fim da juventude.

Um dia, a velhice é percebida: não se é mais jovem. É como se a morte chegasse com sua foice gigante e nos colocasse de frente ao espelho para constatar que aquele velho que vejo sou eu. Aquela papada que se vê embaixo do queixo existe, e insiste em mostrar um rosto velho e flácido. Não há conversa; a juventude acabou.

Essas constatações são difíceis: parece tudo um grande absurdo. Quando foi que o corpo ficou incapaz para algumas atividades? Quando o biquíni mínimo terá de ser doado, pois não poderá mais fazer parte do vestuário? Ah, essa ruga maldita, preciso tirá-la a todo custo.

Tentar adiar o máximo possível a maturidade, a senescência deixa uma legião de pessoas angustiadas e prisioneiras de etapas já vividas. Há os inadequados querendo manter atitudes incompatíveis com suas idades. Como já dizia Machado de Assis, “há criaturas que chegam aos cinquenta anos sem nunca passar dos quinze.”

Não podemos confundir velho com idoso, jovem com juventude, e muito menos morte com recomeço. Cada etapa tem um começo, um meio e um fim.

Como a morte é anunciada, a velhice também nos é anunciada. Ao nascer temos um dia menos de vida e somos um pouco mais velhos que éramos no dia anterior. O processo de envelhecimento começa muito cedo, mas não nos damos conta de sua rapidez. Aos cinco anos nem sabemos exatamente o que é ficar velho ou morrer: “Velho é o João que está com 20 anos, ele já dirige” – diriam algumas crianças; ou “Velho é o vovô do meu amiguinho que tem cabelo branco, não o meu que ainda tem cabelo escuro.”. Uma vez ouvi de uma criança de cinco anos uma pérola a respeito do assunto: “Sabe, minha tia é muito estranha, quando eu olho o cabelo dela é como se ela fosse nova, mas a cara dela é toda cortadinha.” Achei interessante, pois a tia a quem se referia era uma mulher muito bonita que insistia em usar franjinha aos quase 60 anos, não que aquilo lhe caísse bem. Era, sim, uma tentativa de estender sua juventude.  

Ao lembrar-me dessa história, outra me veio à memória: um texto da escritora Lya Luft (A Idade e a mudança), no qual relata experiência que teve ao dar uma palestra, segundo ela, muito inteligente e pertinente. Perguntaram-lhe, então, sua idade. Ao dar a resposta, os presentes ficaram mais surpresos com sua ótima condição física e aparência jovem, do que tudo aquilo que ela falara até então. Verdadeira frustração para ela. Seria como confundir o olhar sempre atento de uma mente e coração abertos, com juventude. Alma jovem em corpo velho versus alma velha em corpo velho.

Ficar idoso é um fato que todos que chegam aos 80 ou 90 anos vivem; ficar velhos é algo que podemos evitar se fizermos muita musculação com o cérebro: tolerância, curiosidade e respeito. Neste caminho podemos ser velhos de 20 anos ou jovens de 80. Entretanto se ficarmos presos à beleza que se foi, a velhice chega galopante nos deixando inadequados e muitas vezes ridículos.   

Acabou! Finish! Finire! Finir! Enden! Never More!

_________________________________

 ASSIS, Machado “A mão e a luva” – Obra completa Vol. I – Rio de Janeiro, Ed. Aguilar, 1962

Em quantas línguas e de quantas formas precisamos ouvir essa palavra para darmos conta do fim. Numa atitude de negação, apegamo-nos à vida, ao conhecido, à juventude numa tentativa de burlar a morte. Nesse processo, fica-se preso a uma vida inexistente: ao  segurar uma juventude, custando o que for, a pessoa perde a possibilidade de ficar jovem. Olhos atentos: só a maturidade pode lapidar.

Torna-se fácil falar de neuroses quando o assunto parece estar ligado às figuras parentais, à revolta com os costumes vigentes, a inadequação dos padrões vividos, entre outros diversos exemplos. Contudo quando a sociedade está vivendo uma situação sociossintônica – o apreço à estética –, perde-se a dimensão do problema e a angústia vividas pelas pessoas.

Ao colocar-se o valor da existência num rosto liso, numa perna ou num dorso bem torneados, fica-se sujeito à perda precoce da potencialidade da vida. Agarrar-se a uma juventude fazendo o possível para evitar a chegada dos 40, 50, 60 anos é muito parecido com o agarrar-se a um casamento fracassado há décadas por falta de amor e admiração, em nome de filhos, sociedade ou dependência econômica.

Em psicoterapia trabalhamos muito com as perdas e as dificuldades enfrentadas em alcançar um novo objetivo, que só poderá aparecer se houver um espaço vazio. Há a dificuldade de dizer acabou, não existe mais – never more – e deixar esse espaço aparecer. Parece não haver segredo, e ser tão fácil entender que tudo na vida tem um começo, meio e fim; emocionalmente, porém, agarramo-nos ao que é conhecido e nele nos aprisionamos, morrendo aos poucos numa agonia estressante.

No filme documentário dos “Doutores da Alegria”, há uma passagem em que o pai de uma criança diz que, só quando estava preparado para se despedir do filho doente, conseguiu lidar com a morte, deixando o filho morrer. Foi uma atitude de amor e de compaixão, acabar o sofrimento do menino, mesmo sabendo da dor da falta que sentiriam sempre dele.

Algumas religiões, alguns mitos e ditos populares tentam amenizar a vivência de término. Há crenças que dizem haver uma vida eterna após a morte, outras, que nosso espírito não morre jamais, ditos como: “ Deus fecha uma porta para abrir um portão; ou, morreu para a vida eterna”. Tudo isso nos dá uma dimensão maior da vida, mas, ao mesmo tempo, pode confundir muito. Como pode morrer para a vida eterna? Estranho.

Morrer para a vida?

Penso que talvez se faça muito isso mesmo quando se  fica preso a um estágio da vida, à neurose da juventude; fica-se numa prisão eterna da morte em vida. Cada pedaço do corpo psíquico está repleto de histórias, dores, alegrias, motivações; e cada pedaço do corpo, do organismo, idem. Ao negar-se uma ruga, um músculo flácido ou mesmo a idade vivida, estamos negando olhar para parte significativa de nossa existência.

Parece um grande absurdo, mas, em análise, trabalha-se muito a dificuldade de o paciente enxergar determinada situação, e é por não conseguir entendê-la ou desliteralizá-la que muitos nos procuram. Usar uma frase do tipo: “Você não quer olhar para isso na sua vida”, já é até difundida em filmes e seriados televisivos, mas dificilmente se ouve a frase: “Você não quer olhar para a flacidez de seu braço”. Aquilo é feio e ninguém quer ver.

Somos o segundo país com o maior número de cirurgias plásticas, perdendo apenas para os Estados Unidos da América. Lifting, peeling, são palavras que se tornaram universais; botox, lipoaspiração, preenchimento de rugas e lábios inflados, fazem-se aos borbotões, deixando uma legião de pessoas com expressões e rostos muito similares. Gêmeos nas suas neuroses de preservar o máximo possível a juventude perdem a dimensão das deformidades criadas, perdem a autoimagem.

Ainda não há cirurgia para fazer o velho andar rapidamente, mover-se com a desenvoltura de 20 anos.

 Como nomear este momento que estamos vivendo em que ser jovem é muito melhor do que qualquer coisa? Puela e puer são termos usados para alguém que fica preso na adolescência, mas não se enquadram perfeitamente nesta morte antecipada da velhice: o assassinato premeditado de uma etapa da vida que nos prepara para a morte.

Há um desenvolvimento natural da infância à velhice, passando pela adolescência. São etapas necessárias para preparar a pessoa para a etapa seguinte, e cada uma com suas características e suas belezas próprias. Quando eu era criança, aprendíamos no primário que a criança nasce, cresce, casa, fica velho e morre; atualmente se poderia dizer que a criança nasce... cresce... fica jovem, jovem, jovem, menos jovem e talvez morra, mas é melhor não falar isso para não atrair maus fluidos. 

O jovem serve de inspiração aos mais velhos, uma vez que a juventude dá liberdade para novos conceitos, tendências, estilos, pensamentos e revoluções. E o velho também é inspiração ao jovem ao trazer histórias, reflexões, ponderações, ideias. Se o velho se agarrar a uma juventude, permanecerá num espaço estranho, pois nem é o jovem com toda sua exuberância, nem é o velho a quem se deve olhar. Ficará num lugar em que poderá perder a visão mais distanciada do jovem, alimentando-se com toda revolução típica dos mais novos. De outro lado, poderá ser difícil ao jovem identificar-se com o velho que não é velho, mas também não é jovem.

Alguns problemas psíquicos ficaram mais aparentes nos últimos tempos e estamos tentando ainda entender fenômenos que se apresentam. Para mim, pensar sobre o medo da morte e o mito da eterna juventude faz-se necessário se quisermos ter pessoas mais participativas, ativas e inteiras.

Por mais que se façam cirurgias corretivas, rejuvenescedoras, não há o que traga de volta o vigor e frescor de um olhar jovem. Investir na juventude é investir na curiosidade sobre a vida, sobre o novo, mesmo que para isso tenhamos de colocar um aparelho auditivo, o par de óculos e usar a bengala.

A juventude: Never More! Ser jovem : Always

 

 
 
Site em Joomla desenvolvido por Kessef Brasil