Revista Junguiana 30/1

Revista Junguiana 30 – Diversidade




revista junguiana 30Outro na Diversidade

André Mendes

O presente artigo pretende explorar as diferentes fantasias engendradas a partir do encontro com a diversidade: das perspectivas promotoras de relações que atenuam as diferenças e reforçam a perspectiva literal de identidade até os encontros adversos e ambíguos, nos quais as experiências do eu encontram multiplicidade e pânico. Orientado pela psicologia arquetípica, o texto procura olhar através das metáforas contidas na linguagem, na constituição do sujeito, na alquimia de Mercúrio e na mitologia de Pã para rever o papel da diversidade na atividade psicológica.

 

Ex-Mãe, Ex-Pai, Ex-Filho: A Data de Validade das Relações

Sylvia Mello Silva Baptista

Seria possível pensar na condição de ex- -mãe, ex-pai, ex-filho? Como esses papéis se eternizam e aprisionam o indivíduo em rela- ções que necessitam morrer? A psique tem sede de movimento e na mítica grega isso se expressa através da figura do deus Hermes. Ao seu lado, inaugurando a quebra da herança venenosa de devoramentos pelo medo de destronamento, está Zeus. Nesse encontro, e no confrontamento das feridas da infância, se faz possível a ativação da diversidade que esses dois campos arquetípicos representam e de que a psique tanto necessita. O presente artigo tem o objetivo de refletir sobre as relações parentais abusadoras bem como as ditas não patológicas a partir dessa óptica e tecer relações com a mitologia grega naquilo que ela pode nos ensinar como expressão arquetípica.

 

Cozinhando com o Inconsciente – Um Trabalho Simbólico com Pacientes Psicótico

Mayuri Hassano

A autora propõe-se a refletir a respeito das especificidades de uma oficina de culinária para pacientes psicóticos a partir de sua pró- pria experiência e da amplificação dos elementos simbólicos que envolvem esse universo. São analisados aspectos relacionados ao alimento e ao arquétipo da grande mãe, à culinária como arte alquímica, às receitas como narrativas de criação, ao ritmo da cozinha, ao estímulo dos sentidos e à mesa como espa- ço de compartilhamento e aproximação da diversidade. Ela finaliza discutindo de que forma esses elementos contribuíram no tratamento de pacientes psicóticos.

 

Schopenhauer e a Paixão

Roberto Rosas Fernandes

O objetivo deste artigo é aproximar a reflexão do filósofo alemão Arthur Schopenhauer da prática clínica da psicoterapia. No percurso do texto, fica demonstrado que as ideias do filósofo são compatíveis com alguns fundamentos da psicologia analítica e da psicanálise no que diz respeito ao conceito de paixão. Por essa abordagem, a paixão advém da Vontade, que, segundo Schopenhauer, é a força cega faminta e desejante pela qual o ser humano e outros seres viventes são transpassados. Tal força, na interioridade humana, se objetiviza na forma de instinto, sobrecarregando o sujeito de desejos e frustrações.

 

Um Enfoque Arquetípico do Tribunal do Júri

O Voto de Minerva é por Consenso e não por Desempate um Estudo da Psicologia Simbólica Junguiana – Carlos Amadeu Botelho Byington

Este artigo tem a finalidade de demonstrar que o significado psicológico e arquetípico do chamado voto de Minerva é o consenso e não o desempate. Minerva é uma deusa romana que corresponde a Palas Atenas na Grécia. Para defender sua tese, o autor analisa o tema mítico do Areópago, instituído na mitologia grega pela deusa Palas Atenas para julgar Orestes pelo assassinato de sua mãe, Clitemnestra. O autor situa essa argumentação em sua teoria arquetípica da história, explicando que a geração da deusa Palas Atenas na mitologia grega compreende a ultrapassagem da dominância patriarcal de Zeus e Hera no Panteon grego, para estabelecer a etapa da alteridade. Na dominância patriarcal, o voto de Minerva seria compatível com o desempate, mas este, na perspectiva do autor, é um voto de consenso em função da dialética de alteridade. A seguir, o autor considera que atribuir a finalidade da história à dominância patriarcal, pelo fato de ela ter ultrapassado a dominância matriarcal da pré-história e instituído a civilização, foi um erro fundamental da história da ciência e do humanismo de um modo geral. Ele argumenta que, devido à depressão consequente às duas guerras mundiais, o Self cultural do Ocidente abriu-se para perceber a sombra da etapa de dominância patriarcal. Essa sombra se mostrou tão imensa e catastrófica que desmoralizou a glória heroica da civilização patriarcal e propiciou a percepção do arqué- tipo da alteridade como um novo padrão de consciência capaz de elaborar essa sombra e implantar a economia sustentável dentro do socialismo democrático. A seguir, o autor aborda o tema do Areó- pago na peça Eumênides, da Trilogia Oresteia de Ésquilo, e associa o voto de Palas Atenas Minerva), que liberta Orestes, a um voto de consenso. Esse voto seria então a elaboração do luto pela morte de Agamenon e de Clitemnestra, e encerraria a luta ideológica dos arquétipos matriarcal, representado pelas Eríneas, e patriarcal, representado por Apolo, por meio da incorporação dialética do arquétipo da alteridade, representado por Palas Atenas, na cultura ateniense.

 

Tradução, Diversidade e Hospitalidade no Processo de Individuação

Carlos Bernardi

A questão da diversidade, vinculada à da individualidade, é vista na obra de Jung com base em três pontos de vista. O procedimento dialético enfatiza a necessidade de um encontro em que a individualidade do outro é reconhecida e o terapeuta se coloca em uma posição de não saber. O diálogo é visto como uma tarefa de tradução, em que a língua do outro é reconhecida como estrangeira. Essa singularização é explicada pela tonalidade afetiva que se associa às representações. Por último, o processo de individuação como processo de diferenciação é responsável pelo desenvolvimento individual e seu afastamento de uma coletividade indiferenciada. Visto pela perspectiva política, a individuação seria a capacidade de ser hospitaleiro a todas as vozes e de criar uma assembleia, os Estados Gerais, onde a diversidade cultural encontraria um espaço de acolhimento e manifestação.

 

Os Anticorpos Psíquicos – Diversidade e Individuação

Maria Zelia de Alvarenga

A autora propõe uma digressão sobre como a integração de polaridades simbólicas para o complexo do eu se forja, comparando essa integração ao conceito qualia, da neurociência. A integração ocorre com a mobilização de grande carga emocional e se dá pela consciência reflexiva que tem um caráter pós-patriarcal e qualifica esse padrão de consciência como dialogal. Propõe também que as polaridades simbólicas não estruturadas permanecem no reino da sombra como instâncias da própria identidade e passam a funcionar como inimigos de si mesmo, provocando a formação de anticorpos, que qualifica como anticorpos psíquicos. Conclui que o processo de individuação é o gerador da maior de todas as diversidades.