Revista Junguiana 23

Revista Junguiana 23 – Emoções – Esgotada

revista junguiana 23Nise da Silveira, 100 Anos de Emoções de Lidar

Arnaldo Alves da Motta

Originado em uma pesquisa sobre história da psicologia analítica no Brasil e lembrando o centenário de nascimento de Nise da Silveira, este artigo percorre o período de vida dessa alagoana, que se confunde, em certa medida, com a história do Brasil do século XX. Inicia pelos primeiros tempos em Maceió cidade natal de Nise, passa pela sua condição de jovem estudante e única mulher na turma do curso de Medicina no Rio de Janeiro. Segue abordando os tempos de prisão durante a ditadura Vargas, ao qual sucedeu um período de auto-exílio para chegar ao Centro Psiquiátrico em Engenho de Dentro. Nessa instituição Nise da Silveira desenvolveu um método de trabalho com doentes mentais graves, na contramão dos ditames da psiquiatria hegemônica de sua época. Encontrou em Jung um referencial teórico para fundamentar sua proposta, tornando-se pioneira e principal disseminadora das idéias da psicologia analítica em nosso país. O que poucos sabem é que denominou “emoções de lidar” o método que revolucionou a abordagem a pessoas com graves transtornos mentais, criado por ela em Engenho de Dentro. Tal denominação, como se vê neste artigo, tem como base o lugar que o afeto ocupou em sua vida, tornando-se uma das mais importantes referências norteadoras de sua caminhada.

 

Meu Encontro com a Psicologia Junguiana

Murray Stein

O autor descreve sua entrada no mundo da psicologia analítica e o que isso significou para ele. A história segue o curso de trinta anos de envolvimento, desde seu início como estudante no Instituto C. G. Jung de Zurique até se tornar um analista e membro fundador de diversas sociedades de analistas dos Estados Unidos e presidente da IAAP. Incluem-se registros dos interesses intelectuais e clínicos predominantes nesse percurso.

 

Freud e Jung: O que a Emoção Não Deixou Reunir. Um Estudo da Psicologia Simbólica Junguiana

Carlos Amadeu Botelho Byington

O autor descreve a problemática emocional da relação Freud-Jung centralizada no complexo paterno negativo de ambos e busca relacionar, na obra dos dois pioneiros, as repercussões dessas defesas, que até hoje limitam a psicologia dinâmica. Diagnostica a natureza defensiva da separação pela ruptura abrupta, sem nenhuma elaboração posterior, de uma associação em plena criatividade. Reconhece que o redutivismo de Freud da libido à sexualidade foi muito importante para a separação, mas que não justifica o radicalismo e a precipitação com que ela ocorreu, em face de tudo o que restou para rever e reunir num denominador comum. O complexo paterno negativo é resumidamente examinado nas personalidades de Freud e de Jung, bem como as limitações dele resultantes nas suas obras. O autor acredita ser um problema emocional dos seguidores de ambos considerarem as duas teorias simplesmente diferentes, autônomas e sem necessidade de qualquer interação dialética.

 

O “Delírio de Vidro”. Transparência e Sabedoria na História da Melancolia

Luiz Paulo Grinberg

O autor faz uma revisão sobre a história da melancolia desde a Antiguidade até a era psicofarmacológica atual a partir de alguns textos clássicos de história da medicina, da filosofia e da psiquiatria. São descritas algumas visões paradigmáticas que influenciaram a maneira de olhar para a doença mental e para o conceito de melancolia partindo da teoria grega dos humores, passando pela visão medieval da doença como pecado e possessão diabólica, a perspectiva romântica da depressão como fonte de criatividade, até a apropriação da melancolia pela psiquiatria e a medicina. Discute-se brevemente o histórico das modernas concepções sobre a melancolia e os transtornos afetivos, de Kraepelin aos manuais de psiquiátricos de classificação contemporâneos como o DSMIV. Finalmente, são apontadas algumas contribuições da psicanálise e da psicologia analítica em relação aos significados simbólicos dos sintomas depressivos e a importância de resgatar a subjetividade dos sintomas em psiquiatria.

 

Emoção: Moeda e Desafio da Análise

Cynthia Lira

O artigo aponta o lugar fundamental da emoção no processo analítico tanto para o analista quanto para o analisando. Traz a conexão entre emoção e a imagem do coração como central para a vida. Busca mostrar a atualidade das afirmações de Jung acerca da emoção, trazendo as confirmações recentes que estão surgindo do campo da neurologia e da neurocardiologia. O artigo é ilustrado com uma lenda e a visão dos povos nativos das Américas acerca da importância da conexão com o coração.

 

Reflexões Sobre a Agressão e Violência: Da Biologia à Cultura

Maria Paula Magalhães Tavares de Oliveira

É objetivo deste trabalho examinar a agressão e a violência a partir de diferentes abordagens. Dentre as mais relevantes, destaca-se a contribuição de alguns etologistas que afirmam ser a agressão inata e relacionada à sobrevivência da espécie, sendo biologicamente determinada, bem como de alguns antropólogos que referem a cultura como determinante do comportamento agressivo. A relação entre violência e sociedade é discutida sob vários aspectos em sociedades primitivas, o banditismo social e a sociedade contemporânea. O conceito de arquétipo é apontado como possibilidade de trânsito entre essas diferentes visões, e as afirmações de Jung sobre a consciência como possibilidade de lidar com impulsos agressivos de maneira apropriada. Discute-se a influência da violência nos meios de comunicação e identificam-se formas criativas de lidar com a agressão.

 

O Complexo de Chronos e o Descompasso Emocional

Ricardo Alvarenga Hirata

Este artigo visa uma reflexão sobre o fator tempo na cultural ocidental pós-moderna. O culto ao consumo do efêmero, dos relacionamentos “descartáveis”, da poluição biotóxica, das angústias e ansiedades pela falta de tempo e do descompasso oferta-demanda versus reciclagem são sintomas de um complexo ligado ao simbolismo do tempo, o qual denominamos complexo de Chronos. Acreditamos que a perda de sentido da mitologia do tempo devida à rápida evolução científico-tecnológica remeteu as polaridades “repouso” e “destruiçã” do quatérnio temporal ao inconsciente, constelando uma faceta de nosso complexo cultural. Concluímos que a psicologia analítica dispõe de um instrumental rico e criativo que pode auxiliar na resolução dessa questão.

 

Arte Emocional das Ceramistas

Lucy Penna

O artigo analisa a emocionalidade nos mitos e costumes amazônicos de origem indígena associados com a cerâmica. Destaca a presença feminina na liderança da cerâmica pré-histórica, em contraste com o predomínio masculino atual nessa arte. O processo criativo das primeiras ceramistas mantinha a identificação com entidades arqueípicas e realizava rituais em todas as fases do artesanato. A figura mítica de uma criadora primordial recebia o respeito das nativas. Ela é mãe do Barro, com uma personalidade emotiva, ciumenta, assim como mesquinha, rabugenta e raivosa. Entretanto, ela protege suas “filhas” e as ensina a coletar, modelar e queimar o melhor barro para transformá-lo em finas peças. Nos procedimentos indicados as devotas devem manter-se ao máximo afastadas do contato com os homens. Elas trabalham em local isolado e silencioso. As ceramistas indígenas não só foram hábeis com as mãos, mas também no domínio dos quatro elementos, terra,água, ar e fogo, o que exige saúde de corpo e de espírito. Seu esforço para obter sucesso e reconhecimento social está simbolizado nos mitos através de expressões nas quais amor, desejo, ciúme, inveja, sexo e morte pintam o cenário da intensa alquimia interior vivida por essas mulheres.

 

A nobilidade da Anima: A figura de Angélica em Guisppe T. Di Lampedusa, o Leopardo

Massimo Caci

Giuseppe Tomasi di Lampedusa é o escritor mais importante dos anos pós-guerra na cultura italiana. Seu importante romance O Leopardo é uma encruzilhada na sociedade siciliana, de sua persona, no final do século 19. Essa sociedade, dominada pela aristocracia, se negou a fazer face ao novo evento histórico representado pela chegada na Sicília de Garibaldi. Thousand. A aristocracia siciliana se recusava a mudar sua natureza. Somente o príncipe de Salina aceitou esse novo evento, ajudando o sobrinho de Tancredi, oficial de Garibaldi, a se casar com Angélica, a bela filha de uma pessoa de classe média com desejo de ascensão social. Angélica representa a transformação de anima do príncipe como personificação, a aristocracia siciliana, e a anima como função de relacionamento entre consciente e inconsciente.

 

Vida e Morte – Morte e Vida. Correlações Mítico-Simbólicas

Maria Zélia de Alvarenga

A autora se propõe a responder questões que afligem os humanos quando da aproximação da morte concreta, servindo-se de referenciais míticos. Conceitua mito e rito, funções do mito e ritos de passagem como exercícios de morte simbólica. Cita mitologemas de descida aos ínferos, inclusive do mito de Cristo. Afirma sermos todos nós portadores de uma natureza heróica, sem o que não suportaríamos a tarefa da aquisição do autoconhecimento, condição imprescindível para lidar com as mortes simbólicas da vida, com a finitude do humano e com a necessidade e o desafio de dividirmos com o outro a condição de sermos e de nos sabermos, sem o que não há individuação.

 

Do Amor na Saúde à Saúde do Amor

Iraci Galiás

Nesse artigo é discutida a importância do amor na saúde, nos diferentes tipos de relação humana. São ressaltados o amor materno, paterno, filial, fraterno, conjugal e cósmico como ligados a diferentes arquétipos. As doenças do amor são associadas aos desvios nos diferentes padrões descritos, bem como os crimes passionais e amorosos, como matricídio, parricídio, filicídio, fraticídio, uxoricídio, mariticídio e genocídio.

 

São feitas associações com a música popular brasileira, citações místicas e a prece de São Francisco de Assis.

 

Casamento: “União na Saúde e na Doença?”

Nairo de Souza Vargas

A partir da questão de ser o casamento uma união “na saúde e na doença”, o autor reflete sobre os sentidos que essa afirmação pode assumir diante de diferentes vinculações conjugais. Distingue os casamentos vivos de individuação dos casamentos paralisados de acomodação. Aborda a difícil questão gerada por mudanças em um dos cônjuges, por doenças ou acidentes, que possam comprometer ou mesmo impedir a verdadeira relação conjugal. Propõe o casamento verdadeiro como aquele que propicia que cada cônjuge se torne “si-mesmo” e o casal um “nós-mesmos” dentro da relação amorosa. Finaliza com Vinícius de Moraes (2005), no “Soneto de fidelidade”, afirmando que o amor conjugal “não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”.

 

O Bebê Junguiano e Sua Mãe. Aplicando as Teorias Junguianas às Fontes da Vida Psíquica do Bebê Recém-Nascido

Brigitte Allain-Dupré

Jung considerou que o processo de individuaçãoo somente começava na segunda metade da vida. Hoje em dia, graças ao aporte de trabalhos de M. Fordham, E. Neumann, do conjunto da psicanálise anglosaxônica, mas também de toda a pesquisa contemporânea sobre as condições de vínculo do bebê, pode-se afirmar que o processo de individuação começa desde o nascimento, com a emergência do sujeito.

 

Cabe a pergunta de como nós, os analistas junguianos, retomamos o pensamento de Jung para empregar o conceito arquetípico a fim de aplicá-lo ao desenvolvimento da vida simbólica e relacional do bebê. A partir da atividade do arquétipo, em particular da sombra e da persona, a autora propõe hipóteses sobre a relação mãe-bebê e sobre a constituição da vida psíquica do bebê.

 

La Poética Del Sueño Y Las Metáforas Del Sufrimento

Gonzalo Himiob

Este trabajo forma parte de Ia línea de investigación que el autor ha realizado por mas de diez anos en grupos de estudios sobre sueños. Basa su trabajo en Ia obra de Freud, Jung, Bosnack y su experiencia personal, así como en los seminarios impartidos en Ia Universidad Central de Venezuela sobre Psicología, Sociedad y Cultura. Explora Ia coincidencia creativa entre Ia obra poética, el simbolismo onírico y Ia patología mental, atribuyéndoles similitud en cuanto aI sentido creativo. Se apoya en Ia obra poética y ensayos de distintos autores Latinoamericanos y relata el sueno de una participante en los grupos de estudio sobre suenos.