Dependências: O homem à procura de si mesmo

Dependências: O homem à procura de si mesmo

dependencias-o-homem-a-procura-de-si-mesmo-1Autor(a): OLIVEIRA, Maria Paula Magalhães T. de

2002 – São Paulo

Este trabalho versa sobre um herói que infla e se perde na busca da vivência da totalidade à procura de si mesmo. Um herói que, ao ter visões, se equivoca e fica prisioneiro ao invés de sair transformado. Visões essas que podem incluir substâncias psicoativas ou comportamentos como apostar em jogos de azar, comer, fazer sexo, comprar, enfim, atividades passíveis de provocar dependência. Esses comportamentos são discutidos como outra maneira de transcender a experiência imediata visando a busca da vivência de totalidade inerente à condição humana. É apontada a falta de rituais na cultura ocidental, favorecendo o uso indiscriminado de substâncias e de outros comportamentos que favorecem a dependência. Trata-se de conteúdos arquetípicos que se não forem humanizados, elaborados e integrados, inundam o ego provocando sintomas de dependência em vez de favorecer o processo de individuação.

O uso de drogas em diferentes épocas e culturas é descrito e os principais achados sobre os mecanismos de ação das drogas psicoativas de acordo com sua classificação em depressoras, estimulantes ou “perturbadoras” são apresentados. Aspectos psicodinâmicos da farmacodependência são discutidos procurando compreensão do fenômeno a partir de conceitos relacionados à psicologia analítica. O farmacodependente procura a totalidade não no sentido de transcendência e de transformação, mas numa busca anterior, de possibilidade de existência. Neste sentido, são tecidas considerações a respeito do tratamento das farmacodependências, abordando diferentes estratégias terapêuticas, como internação, grupos de auto ajuda, farmacoterapia e psicoterapia individual. A indicação de atendimento ambulatorial é ressaltada como espaço terapêutico que propicia a criação de vínculos e que favorece o resgate da identidade do dependente, por meio de diversas modalidades de atendimento integradas. A partir da concepção de psicoterapia institucional a transferência é compreendida no seu sentido mais amplo, como transformação que ocorre a partir de encontros genuínos que podem acontecer no cotidiano. O trabalho desenvolvido no PROAD/UNIFESP é descrito, enfocando a importância do grupo de acolhimento e a utilização de técnicas expressivas, ilustrada pelo Grupo de Argila. Serviços especializados com diferentes modalidades terapêuticas formam uma cadeia terapêutica, em que o paciente circula por diferentes serviços ligados por um elo, seu projeto terapêutico. A integração desses serviços é apresentada sob a ótica de uma Rede e é apontada a necessidade de investir em equipes e valorizar os profissionais para a efetividade desse trabalho. A problemática de crianças e adolescentes em situação de risco é discutida como manifestação da sombra coletiva de uma sociedade que não tem coragem de enfrentar a complexidade das questões que a própria existência engendra. Enfatiza-se a importância dessa Rede que inclui o excluído, favorecendo projetos que propiciem condições para que direitos e deveres possam ser exercitados e o desenvolvimento integral do adolescente estimulado. Prevenção ao uso indevido de drogas é discutida tendo como premissa que é prevenção toda ação que vise o desenvolvimento integral do adolescente, que estimule sua criatividade e seu potencial para que consiga conviver com as adversidades sem ter que se refugiar no uso indiscriminado de substâncias psicoativas.

Procurando ampliar a discussão, outros transtornos do impulso que se assemelham à farmacodependência são discutidos. Em particular, jogo patológico é definido e exemplificado pela fala de jogadores patológicos em tratamento. Características psicodinâmicas são discutidas, bem como estratégias de intervenção.

Ao final, o processo terapêutico é resumido: ao passarem por um percurso que os conduz a si mesmos, libertam-se e ficam livres. As drogas, o jogo, sexo, comida, internet, etc. perdem esse efeito avassalador que exerciam sobre o indivíduo dependente, deixam de ser deuses a quem tinham que servir incondicionalmente e passam a ser meros nomes. Os arquétipos foram humanizados e os indivíduos encontraram o centro que está dentro deles mesmos, seu Self. Tanto no tratamento, quanto na prevenção da dependência, procura-se resgatar o indivíduo para que haja um “eu” que de fato escolha e não seja apenas levado pela impulsividade. Esse processo que resulta em um indivíduo singular, capaz de fazer escolhas, é o fim de uma jornada heróica que só pode se dar através da relação eu/outro. Relação essa que não precisa se restringir à relação paciente/analista, mas que também pode se estabelecer em encontros significativos no cotidiano. É a transferência compreendida no seu sentido mais amplo, o encontro entre Eros e Psyché na vida.