Um minuto, por favor!

Um minuto, por favor!

Um minuto, por favor!

Um minuto de sua atenção! Só um minutinho! Um minuto de silêncio!

Betinho, três anos, assistia a um desenho na TV quando pediu à mãe um toddynho e ouviu dela: “Um minuto”.

Ao mesmo tempo – ou sincronicamente, diriam alguns –, vê e ouve na TV um pedido, até então novo para o pequeno: “Vamos fazer um minuto de silêncio em homenagem ao Dr. João Veiga, ilustre advogado”.

Na cabeça do menino, sinapses complicadas, pensamentos atropelados se misturavam: “O que a mamãe tinha a ver com o moço da TV? E quem afinal era o tal Dr. João?”. Betinho ficou quieto, afinal tinham pedido um minuto de silêncio.

A mãe, ao ouvir tal silêncio – sim, mães ouvem silêncio –, chamou pelo filho:

“Betinho?”

E o menino, mudo, na sala, não ousava nem respirar mais fundo para o moço da TV não ficar bravo.

A mãe, que sabia bem que o silêncio do filho poderia ser sinal de alguma traquinagem, foi até a sala; encontrou o filho quietinho no sofá e olhos grudados na TV, que ainda insistia no tal minuto de silêncio que já durava muito mais.

Achou estranha tal visão e perguntou ao filho o que estava acontecendo, se ele estava bem e recebeu a seguinte resposta:
“SHHHHHHH! Fez o som com um dedo nos lábios, e o outro apontando a TV.

A mãe achou aquilo tudo muito non sense e esperou a permissão do filho para falar.
-Betinho, o que aconteceu?

“Você sabe.”, falou o filho com uma cara de quem se depara com o óbvio; afinal, a mãe tinha pedido um minuto e sabia para o que era o tal minuto de silêncio.

Quem não tinha entendido nada era o Betinho. Resolveu perguntar à mãe: “O que é um minuto de silêncio? Quem era aquele moço, o Dr. João?”.

A mãe com toda delicadeza explicou que se pedia um minuto de silêncio para quem havia morrido, em sinal de respeito. E o que era respeito mesmo? Era cumprimentar a vizinha, falar bom dia para o porteiro do prédio, dar beijinho na Tia Cotinha, abraçar o vovô e a vovó, e não comer de boca aberta. Ah, o Betinho tinha entendido tudo. Ficar quietinho era sinal de respeito por alguém que tinha morrido e ido para o céu. Porém…

“Mãe, por que a gente faz silêncio, e não beija o Dr. João?”.

E a mãe, confusa em como explicar isso para o filho, responde:

“Porque a gente não conhece o Dr. João”.

E o Betinho:

“Então por que a gente tem de fazer o tal minuto de silêncio para ele?”.

A mãe já prevendo que aquele questionamento iria longe e acabaria num beco sem saída, apelou para o famoso: “Porque sim!”. Fim de papo.

Levantou-se e foi fazer seu trabalho. Sentou-se à frente do computador, ligou-o, entrou na página que precisava e não conseguiu se concentrar. A carinha do Betinho e seu questionamento sobre o silêncio respeitoso povoavam seu pensar.

Parou, afastou-se do computador, pegou uma xícara com chá quente e pensou, pensou, pensou. Por que a gente precisa de silêncio para reverenciar alguém? O que estaria embutido num minuto de silêncio? E, principalmente, há quanto tempo não fazia exatamente o que estava fazendo: parar e pensar em coisas óbvias, que, por serem óbvias, não mereciam o seu minuto de introspecção e silêncio.

Ficou ali algum tempo, talvez um minuto, talvez quinze minutos, talvez trinta minutos. Não saberia dizer se não tivesse sido chamada novamente à vida cotidiana, e o prazo que tinha para terminar seu trabalho.

Resolveu ver seus e-mails. Sincronicamente, recebe dois e-mails que em outro momento não abriria, um sobre doar palavras aos pacientes que fazem quimioterapia nos hospitais, e outro sobre o pedido de uma japonesa, aos amigos ocultos de outras nações, de que fizessem um minuto de silêncio às 21hs – horário de Tóquio –, com pensamentos positivos numa corrente energética dirigida ao povo japonês. O que é isso? E um complô para eu não trabalhar hoje?

Achou melhor afastar seus pensamentos e acabar o trabalho. Em algumas horas já havia feito tudo, e enviado a seu editor-chefe.

Já era final de tarde quando Betinho retornou da escola com o pai. Veio feliz da vida contando o que havia feito, com quem brincara e o lanche delicioso que haviam servido naquele dia. Falou que tinha ido à banca de jornal com o pai, comprado figurinhas e balas… Estava excitado e exausto depois de uma tarde inteira de muita animação.

Hora do banho. Cada um, em seu tempo, se arrumou para o jantar. Comeram e conversaram bastante. Riram, brincaram e elogiaram as panquecas que a Zelda havia feito. Uma delícia.

Um pouco de TV, escovar os dentes, contar uma historinha para Betinho e caminha.

A casa em silêncio novamente. Pai e mãe – Pedro e Ana – se encontram na sala. Ele lê um livro e está entretido na leitura que parece ser muito interessante. Ana senta-se e fica quieta. Aquele silêncio atrapalha a concentração de Pedro.

“Algum problema, Ana?”, indaga ele.

“Não. Estou pensando no silêncio: o que acontece no silêncio, o que pensamos e para quem pensamos.”, responde Ana.

Pedro fecha o livro calmamente achando que aquela conversa levaria a algum outro assunto desagradável. “Algo aconteceu, com certeza”, pensava ele.

Quis saber mais de Ana.

“Como assim? Silêncio é um tempo em que ficamos quietos.”.

E Ana:

“Será?”.

Pedro e Ana começam uma conversa longa e profunda sobre a importância do silêncio e como estar quieto não significa estar em silêncio.
Pedro, um advogado, leva a questão para a sua área. Se o silêncio fosse algo fácil, colocar um prisioneiro numa solitária seria algo extrem
amente educador, porém não é isso que acontece. Muitos presos ao ficar em silêncio podem enfurecer, saindo piores do que entraram; outros, podem até enlouquecer. O silêncio pode se transformar num barulho ensurdecedor.

No final dessa conversa, eles acordam que estar em silêncio é estar em paz com a Alma e, portanto, poder elevar os pensamentos a quem se queira. Só quem pode fazer silêncio é quem pode estar em silêncio. Estranho, mas foi isso que eles concluíram da conversa.

Ana trouxe-me a questão para a sua sessão de análise. Contou-me tim-tim por tim-tim o que ocorrera há alguns dias. Estava muito ligada aos sentimentos e conjecturas que apareceram depois da conversa com Betinho e queria entender o que havia tocado nela, que história era aquela? Quais os silêncios que ela se permitia e quais os que não se permitia? E, principalmente, por que ela sendo uma mulher das letras, uma jornalista, que tinha um blog, que usava e abusava do twitter, não conseguia escrever uma única frase no site de “doe palavras”. Que bloqueio, que angústia.

Ufa! Um suspiro longo e profundo cessou a fala acelerada como se durante alguns minutos tivesse dito uma frase longa de palavras que se emendavam umas nas outras, sem respirar e sem pausas.

Ana estava ali, sentada à minha frente, com os ombros relaxados como se ela tivesse feito muitos exercícios físicos. Um semblante menos tenso, mas não menos preocupado. Se fosse outra época, talvez pegasse um cigarro, desse uma boa tragada para poder continuar a conversa.

O silêncio foi interrompido.

Após outro longo suspiro e um esboço de sorriso, ela me disse que tinha se angustiado com a falta de silêncio em sua vida. Estava sempre tão tomada por milhões de ideias, notícias e afazeres que não conseguia imaginar um espaço para o silêncio.

Que silêncio? Perguntei.

Silêncio para ter um espaço para mim, ouvir meus sons, meus pensamentos me conectando com minha alma.

A sessão correu em seu curso e ao final dela, Ana me disse: “Talvez esse espaço de análise seja o espaço do silêncio, espaço em que deixo os barulhos externos para ouvir meus barulhos internos.”

Foi embora. E eu? Fiquei com um barulho: o que é silêncio para mim, como eu entendo o fenômeno? Diante de uma questão profunda, me permiti uma boa gargalhada e um pensamento estranho: “Será que essa questão é contagiante?”.

Concordo com uma parte significativa das conclusões de Ana e Pedro a respeito da questão. Nem sempre o silêncio é ausência de barulho, e calmo; a impressão de relaxamento durante o silêncio pode ser um grande equívoco.

Pensei em várias questões, desde a mais simples e prática – quando a mãe de  um bebê  consegue ter silêncio em casa é sinal de tranquilidade, e quando tal criança cresce, o silêncio em casa significa exatamente o contrário –, até pensar no que Ana havia me dito sobre não conseguir ter o silêncio necessário para poder escrever uma frase de apoio aos doentes, no site “Doe Palavras”.

Silêncio! Silêncio! Silêncio! Lembrei-me de tantos lugares em que essa palavra é repetida três vezes até as pessoas calarem-se. É o momento importante em que podemos escutar o outro. Não é possível duas pessoas falarem ao mesmo tempo e serem escutadas claramente.

E quanto ao ouvir? Interessante que para que se possa ouvir alguém se tem de estar calado, porém escutando os barulhos e inquietudes internas.

Quando Jung fala das transferências que acontecem em todas as relações e que ficam mais intensificadas na relação analítica, talvez esse espaço psicoterapêutico abra a possibilidade de o silêncio se estabelecer, criando, assim, a comunicação interna entre o eu e o Self.

No meio destes pensamentos todos, entre as sessões de psicoterapia de pacientes diversos, num intervalo para um café, resolvo abrir meu computador para ver meus e-mails, deliciar-me com as notícias, pensamentos e piadas de amigos queridos. Na página principal da web está estampada a notícia de chacina numa escola do Rio de Janeiro. Tirou-me o ar e um silêncio profundo instalou-se.

Após o impacto, reli a notícia que, por ser recente, ainda estava meio desconexa para o meu entender. O que era aquilo? Perguntei-me.

O dia de trabalho acabou e fui para casa. À noite, mais notícias sobre a questão do assassinato de doze crianças, outras tantas feridas e o suicídio do agressor. Junto às questões todas, as manchetes e locutores insistiam numa frase em que diziam ser o primeiro crime dessa ordem no Brasil, como que abrindo um precedente para que outros pudessem ocorrer.

Silêncio total. Não havia naquele momento explicação para aquilo tudo.  Um misto de dor, pena, solidariedade às dores dos familiares, e profundo pesar também por aquele menino de 23 anos que foi chamado de tantos palavrões e que também merecia minha compaixão.

Meus pensamentos foram peneirados quando comecei a conversar com as pessoas sobre o ocorrido. Como poderia dizer que o rapaz assassino era um doente, que deve ter sofrido a vida toda em total silêncio ensurdecedor. Um psicopata, um esquizofrênico, um maníaco?

Quem era o Wellington, o assassino?

Com o passar das horas, do impacto maior do absurdo ocorrido, o silêncio do susto, os comentários severos sobre o assassino tomaram outro rumo; o rapaz mau e implacável deu lugar ao menino doente e esquecido em seu silêncio conflituoso.

Ufa! Repeti um suspiro parecido com o de Ana. A compaixão por aquele rapaz doente e mal tratado pela vida havia tomado conta de várias pessoas.

Em meu silêncio pessoal, pude buscar em minha alma a dor de uma pessoa que tem seu mundo invadido por uma cisão paranoide desde muito cedo; um rapaz que foi abandonado, ainda bebê, numa lata de lixo e, apesar de ter sido adotado, viveu  nessa lata durante sua infância ao ser hostilizado pelo bulling e pelas crianças que não conseguiram conviver com o diferente. Quanta dor, quanta solidão sem que as pessoas pudessem fazer algo por ele, fosse pela ignorância da doença, fosse pela falta de atendimento público específico.

Em meio a tudo isso, vi a reportagem sobre vizinhos de Wellington pintando de branco as paredes pichadas – assassino. Ao ser questionado por um repórter, um dos vizinhos-pintores responde: “Não é por aí, moço, ele nunca nos causou mal e era doente. Não é por aí, não”.

Semana intensa e cheia de pensamentos. A população brasileira estava com o pesar enorme da divisão de dores. E eu, como cidadã e profissional da saúde, pensando: como esses silêncios são importantes para que possamos refletir sobre nossos papéis na sociedade, na família e nos nossos percursos pessoais. Qual é a dimensão individual no universo em que coabitamos? Em meus pensamentos, sou incomodada por um silêncio ensurdecedor das autoridades competente ao serem questionadas sobre o ocorrido. Silêncio pelo inusitado? Silêncio pela incapacidade de compreensão? Silêncio pela arrogância? Silêncio pela culpa? Não saberia responder. Para mim, apenas um silêncio ensurdecedor.

Ana volta ao consultório. Estava exausta pelo trabalho e pelas questões pessoais. “Semana lotada esta, não?”