Teste vocacional

Teste vocacional

Paulo Bloise
Membro analista da SBPA, mestre em psiquiatria pela Unifesp, fundador do Ambulatório de Crise Psiquiátrica e do Anthropos: núcleo de integração mente-corpo. É autor de: O Tao e a Psicologia, De Olho na Rua e Sobre Humanos.

De repente, meu coração bateu com violência. Precisei levantar-me para tomar fôlego… Num relance, como que através de uma iluminação, compreendi que não poderia ter outra meta a não ser a psiquiatria… Lá estava o campo comum dos dados biológicos e espirituais, que até então eu buscara inutilmente. O lugar em que o encontro da natureza e do espírito se torna realidade.
(memórias 
sonhos e reflexões, Jung.)

Por pura coincidência meu coração também disparou quando decidi seguir a psiquiatria.

Os motivos, no entanto, foram bem diferentes.

Farol vermelho. Verde. Vermelho. Verde. Vermelho. Vermelho. Droga! Droga!

Os golpes no peito ficavam cada vez mais fortes à medida que se aproximava a casa de Cristine. O pedido assustado de seu pai ecoava na cabeça, fazia estragos no meu estômago:

“Venha logo, ela está muito mal, estranha…”.

E foi no exato momento em que saía do carro, olhando o pai de minha namorada transfigurado, mordido por demônios familiares, que decidi fazer psiquiatria. O engraçado é que cortei a descrição das loucuras da filha e, sem me conter, disparei:

“Seu João”, mas ele não me ouviu. Insisti de novo:

“Seu João, eu vou fazer psiquiatria!”.

“Ah, psiquiatria?”, ele murmurou franzindo a testa, como se escutasse uma língua estranha. Meio atordoado, bateu a porta da garagem atrás de mim, causando um estrondo. O homem falava sem parar, repetia internação, internação, ah, se a mãe dela estivesse viva!, e acendia um cigarro atrás do outro.

Eu, que me apressei muito no caminho, arrisquei cruzamentos, ultrapassei pela direita, me sentia paralisado. Imóvel na porta da casa. Era uma espécie de pavor imaginar que minha namorada falava com espíritos, ouvia vozes do além e gesticulava a vultos fugidios.

No alto da escada ela me chamava e exibia aquela ausência de vaidade dos surtos psicóticos. O cabelo new wave vermelho perdera o brilho.

A camiseta do The Clash, que eu tanto invejava, tinha manchas de cigarro e gotas amareladas de café.

Cristine me tomou o braço. Apontou o muro vizinho e disparou: escuta! — O pessoal não pára de falar mal de mim. Ela é puta! Ela é uma puta! Tentei argumentar, brincar um pouco com a situação. A garota cravou seus olhos verdes em mim. Estavam desbrilhados como se a antiga luz não escapasse mais das órbitas. Estremeci. Não formávamos mais um casal. Não éramos mais uma dupla de iguais. Tive um medo esquisito, ela percebeu e recuou. Eu a beijei sem vontade, ela virou o rosto tentando escapar, mas meus braços a envolveram firmes. Tensos.
Aos poucos, parados num corredor cheio de folhas caídas, ao lado de um muro alto que não protegia, nos abraçamos. E choramos em silêncio. Dois silêncios mais um pai que olhava para o chão e amassava formigas com a ponta dos pés.

Então, num gesto automático, de quem procura se sustentar no chão, pensei na minha nova profissão: estudaria aqueles fantasmas todos. Um título de especialista e credenciais me protegeriam, como o alho usado pelos tementes de vampiros.

Estava no quinto ano de medicina e descobria a primeira vantagem de ser psiquiatra.