Sobre devoradores e devorados

Sobre devoradores e devorados

Liliana Liviano Wahba
Psicóloga, PhD; docente da PUC-SP. Co-editora da Junguiana e da Psique em Foco. e-mail:lilwah@uol.com.br

Há casos modernos de canibalismo, como o corrido em Rotemburgo – Alemanha, em 2001 conhecido como “O açougueiro de Rotemburg” , o que acrescenta mais um capítulo bizarro e assustador à gama das perversões humanas.

A Psicologia e a Psiquiatria, junto à Medicina Legal, tem estudado há tempos o distúrbio da psicopatia, também denominado sociopatia ou desordem de personalidade antissocial, que se caracteriza por desprezo e violação dos direitos dos outros, com concomitante frieza emocional, quando o sujeito minimiza as consequências de seus atos ou é totalmente indiferente a elas.

Pesquisas das neurociências demonstram que o funcionamento cerebral dos indivíduos psicopatas é diferente do usual. Nesses indivíduos, as áreas cerebrais que conectam a afetividade ao planejamento, as áreas pré-frontais responsáveis pelo adiamento da ação e pelo freio de certos comportamentos impulsivos, e as áreas afetivas mais profundas do chamado sistema límbico – incluindo a amígdala cerebral – são disfuncionais. Resumindo, tais indivíduos são incapazes de manifestar sentimentos de empatia, de ressonância emocional, de solidariedade, todos eles essenciais ao convívio humano.

Discute-se ainda as origens desse mal; o quanto provém da hereditariedade, o quanto é aprendido, ou decorrente de trauma. Apesar de não ter resposta definida, é incontestável que o cérebro dessas pessoas mostra uma anormalidade, pelo menos, funcional. Entrariam nessa categoria assassinos, violentadores, escroques, todos eles frios e cruéis, que não se alteram com o sofrimento alheio e chegam a ter sádico prazer em infligi-lo: um tipo de prazer distante, calculista, robotizado, acompanhado de sentimento de superioridade ou de alheamento com seus semelhantes.

Uma outra patologia existe no prazer perverso de submissão até o ponto de se subjugar à dor e à tortura psíquica ou física. Devido à lei natural de autopreservação, o limite seria o risco de vida. No entanto, a capacidade imaginativa muitas vezes extrapola o limite biológico; haja-se visto nos casos de heroísmo decorrente de uma necessidade premente, nos atos de suicídio terrorista e de ilusões grandiosas delirantes. O grau de patologia varia em cada caso, alcançando extremos surpreendentes.

Quando um sujeito anuncia pela Internet que está oferecendo seus préstimos para devorar um outro e aparece um cliente interessado, a sanidade mental deste último – sem falar a do anunciante – está em pauta. Fora a explicação de um possível instinto de morte, difícil de provar, existiria a afirmação de um estado ilusório grandioso que procuraria o êxtase mediante experiências de transcendência e de fusão. Ser incorporado pelo outro seria uma metáfora concretamente vivida, e o cliente potencial poderia entender que o convite se referiria a trocas sexuais desprovidas de inibição e de barreiras nas quais tudo seria permitido para “devorar-se”, desmembrar órgãos genitais e incorporá-los integralmente.

Se a imaginação humana alcança perversões inacreditáveis e absurdas, há tons atenuados que aparecem no dia a dia e que pertencem a gamas semelhantes dentro da normalidade. Verificamos, portanto, que esse ato extremado de devorador e de devorado existe sob forma de comportamentos variados de seviciamento e de submissão, de imposições punitivas e cortantes e de automutilação, à serviço de poderes e de prazeres não abertamente declarados.

Seria uma ingenuidade achar que estamos tão longe assim do insano suicida que atendeu ao convite de servir de banquete de outro, pois, repetidamente, oferecemos alguma parte nossa para ser deglutida. A loucura está no grau de concretude, mas o significado subjaz além da eventual loucura e atendemos a inúmeros anúncios e/ou demandas que nos levam incautamente a perder um pedaço de dignidade, de autoestima, de autonomia, de afetividade, de inteligência, e somos incorporados por uma doutrina, por um líder devorador, por um dogma, pela sedução, até o risco final de não nos encontrarmos mais, permanecendo no limbo da inconsciência e da inexistência.