Quando o inimigo mora em casa

Quando o inimigo mora em casa

Silvia Regina Luz Avian

Em tempos de discussões sobre violências de todos os tipos, pensei em ampliar o foco para entender a cegueira humana diante do agressor sutil, não aquele que bate, mata e violenta, deixando marcas profundas na carne e na psique, mas sim aquele que chega manso, oferece o ombro e a amizade para, depois de algum tempo, dar um golpe certeiro deixando sua vítima prostrada no chão, atônita.

Desde crianças, ouvimos, em vários contos de fada, histórias de inimigos que planejam o mal, querem destruir os personagens e se disfarçam de grandes amigos acolhedores, acima de quaisquer suspeitas. A cegueira da vítima frente ao futuro agressor é enorme. Algumas narrativas como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, entre tantas, mostram as personagens totalmente nas mãos dos vilões sedentos por destruição.

No Brasil, temos um provérbio que diz: é preferível um inimigo declarado que um falso amigo. O inimigo declarado tem corpo, tem objetivo e mostra os instrumentos que usará para abater sua vítima. Ele mede forças, gosta de uma luta de igual para igual com seu oponente, podendo mostrar, assim, sua superioridade; não tem medo de falar de sua estratégia de destruição. Essa inimizade geralmente está na consciência e não necessariamente é sombria (com fixações e defesas).

O falso amigo não. Ele é dissimulado, espera a hora certa de golpear pelas costas, esconde-se, escamoteia-se com aparência amiga, esperando o momento certo para tirar proveitos de sua presa. Muitas vezes está aquém da vítima na qualidade intelectual, social ou cultural, podendo ser um grande invejoso.

Como exemplo, temos de um lado, o atual presidente do Irã, Ahmadinejad. Ele assume seu ódio em relação a outros povos, fala de seu investimento em armas nucleares e tem como meta a destruição de seus inimigos. Por outro lado, temos a madrasta da Cinderela: ela é dissimulada, não ataca diretamente a enteada. No dia do famoso baile, convida-a, sabendo que criará uma situação para impedir isso.

Na teoria junguiana, o símbolo da totalidade é uma “coincidentia oppositorum”, portanto contém luz e trevas ao mesmo tempo. Os símbolos, sentimentos, pensamentos têm uma polaridade. Se existe o mal, com certeza haverá o bem, e assim consequentemente. Para Jung, “na figura de Cristo, os contrastes, unidos no arquétipo, separam-se no luminoso Filho de Deus de um lado, e no diabo, do outro.” (Símbolos da Transformação paragrafo 576).

Sombra, luz, inconsciente, consciente, bem e mal são polaridades comuns nos discursos da maioria das pessoas. Costumamos colocar o mal léguas distantes de nós mesmos, numa tentativa asséptica de manter o terror da destruição longe e controlado.  Falamos dele, às vezes, com sapiência, como se sempre este mal estivesse no outro, seja quem for esse outro. Carregamos o bem. O mal, projetamos.

No processo pedagógico de desenvolvimento, nos desenhos para crianças pequenas, o bem e o mal sempre são caricaturados. O mal é feio, fedido, e, atualmente, fuma; já o bem é belo, meigo e leve. Essa polaridade é extremamente importante no preparo do adolescente/adulto para a vivência de alteridade – a relativização da polaridade do símbolo se fará presente: a visão dialética da vida.

O mal é tratado como desvio. Ao falar dos caminhos tortuosos da personalidade, uma tendência comum é classificá-lo como doença ou problema de caráter a ser enquadrado como patologia pelo DSM (Manual e Estatística de Doenças mentais).

Atualmente a questão do bullying está sendo tratada por alguns segmentos como algo que sempre aconteceu e acontecerá nas escolas. Levar esse problema para a esfera da normalidade é afastar o mal. É uma normalidade que não deveria ser tolerada. O mal está configurado e temos de lidar com ele.  O bem e o mal fazem parte da vida.

Temos o inimigo público número 1. Ele tem cara, endereço e sabe-se bem o que fez e faz, mas não existe o amigo público número 1. Este, em contrapartida, não tem cara e está sempre em grupo. Se o bem é tão valorizado nas diversas culturas e religiões, por que então o bem tem de estar escondido numa instituição de caridade, numa doação anônima? Quem tem coragem de vir a público e falar sobre a ajuda enorme que presta aos mais necessitados? O ato parece estranho e, geralmente, não é bem aceito. É feio.  É um paradoxo estranho: inimigo declarado e amigo escondido.

Quem, então, é o inimigo? O inimigo é o outro? Somos nós mesmos?

Temos inimigos mundiais que nos servem para perceber que a nossa fragilidade frente a eles é enorme. Não temos como nos prevenir

As imagens das atrocidades de Hitler, após 60 anos do término da Segunda Guerra ainda estão coladas nas retinas da população mundial. Estamos hoje mais espertos, mas não imunes aos possíveis ataques de outros inimigos da mesma ordem.

Ninguém está livre.

Somos vulneráveis ao ataque inimigo; não existe credo, raça ou nível socioeconômico que nos proteja dessa vivência dolorosa. Ser vítima e algoz, ter e ser inimigo, ser e receber o mal são aspectos característicos de todos. Passar por esses papeis fazem parte da vida.

A vivência paradisíaca nos contos de fada, que nos faz crer que nada ruim nos acontecerá é uma constante. Só será interrompida quando o falso amigo, ou o verdadeiro inimigo, der seu golpe aniquilador.

O foco nas diversas histórias que ouvimos está sempre nos que cometem o ataque inimigo, é nele que jogamos o ódio e a repulsa pelo que fez. À vítima, cabe nossa compaixão pela dor causada. Ser autor, porém, não necessariamente é ser protagonista de um ato; como no teatro, tanto o protagonista como o contrarregras fazem parte do mesmo espetáculo; muitas vezes somos também catapultados numa situação pela simples atuação espectadora.

A vítima não vê, não ouve os diversos alertas e sinais. Está totalmente cega, inconsciente, imersa numa escuridão que beira o patético ou burrice.

O agressor manda notícias de seus futuros ataques e a vítima não percebe. A cegueira incondicional não é ingenuidade, não é medo: é sim, somente a cegueira inconsciente. A dica recebida ou é muito fora dos padrões de consciência para ser entendida intelectualmente, ou burlamos nossa intuição para acreditar no que precisamos ver e entender, adaptando o mal-estar causado pela proximidade do ataque, a uma vivência paradisíaca. É o famoso “tapar o sol com a peneira”: não se quer ver ou não se pode ver o ataque previsto.

Na maioria das vezes, o inimigo está muito perto e ligado intimamente à rotina da sua vítima. A relação de interdependência entre as pessoas é desenvolvida lenta e sutilmente; a cumplicidade criada abre espaço para que no momento adequado, o algoz aja.

Se o ataque é avisado, se o agressor tem cara, por que se torna iminente? Por que não se consegue sair do campo de ataque antes do golpe? Por que não neutralizar o inimigo? É inconsciente? Certamente. É demasiadamente fora dos padrões conhecidos? Muito provavelmente.

A cegueira frente às dicas dadas pelo agressor, a distorção da visão do possível ataque me faz pensar no motivo que leva alguém a não perceber um jogo cruel, dando a seu inimigo todas as armas necessárias para seu próprio abate

Estabelece-se uma relação prisional; nenhum dos envolvidos está livre.

A prisão que normalmente se apresenta não tem grades e nem cadeados: a porta está aberta. O agredido, entretanto, não consegue sair e seguir seu rumo, afastando-se das pessoas que arduamente tentam ajudá-lo  na separação da vivência com o agressor.

É o mal que nos visita em determinada época; ele vem com seu cheiro forte de enxofre, suas garras e suas labaredas para nos aniquilar, jogando-nos fora do paraíso. É um rasgo largo no quadro bonito e colorido de uma história que vinha se desenhando. É uma mudança radical de trajetória. É a grande traição que nos nocauteia e nos deixa prostrados na arena da vida. Atônitos.

A indignação que vem após o ataque traiçoeiro faz parte da tentativa de compreensão do ocorrido. Primeiro, a raiva ao outro por ter se aproveitado da confiança para tirar proveitos. Depois, a raiva de si mesmo por não ter conseguido evitar o golpe, mesmo sabendo ser eminente o desfecho final.

Li uma frase atribuída ao Marquês de Maricá que diz: “os nossos inimigos contribuem mais do que se pensa para o nosso aperfeiçoamento moral. Eles são os historiadores de nossos erros, vícios e imperfeições”.

Jung, em seu livro Aion, diz:

A sombra constitui um problema de ordem  moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, via de regra, ele se defronta com considerável resistência. Enquanto, por um lado, o autorreconhecimento é um expediente terapêutico, por outro lado implica, muitas vezes, um trabalho árduo que pode se estender por um largo espaço de tempo (parágrafo 14)

Quando ouvimos relatos de pessoas que sofreram um ataque inimigo, o discurso sobre a agressão vem pautado de flashes. Como num filme, tais flashes pipocam na memória, mostrando que há muito tempo já sabiam por quem seriam golpeados. O inimigo mostrava suas garras e avisava – com sua fala cifrada – que o ataque viria, cedo ou tarde, mas viria.

Em Aion, Jung destaca:

“Muitas vezes é trágico ver como uma pessoa estraga de modo evidente a própria vida e a dos outros, e como é incapaz de perceber até que ponto essa tragédia parte dela e é alimentada progressivamente por ela mesma. Não é a sua consciência que o faz, pois esta lamenta e amaldiçoa o mundo desleal que dela se afasta cada vez mais. Pelo contrário, é um fator inconsciente que trama as ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito. Na realidade, o objetivo desta trama é o casulo em que o indivíduo acabará por se envolver.”(parágrafo 18).

O inimigo nos vê através de nossos ombros: ele enxerga nossa sombra e nossas dificuldades. Para atingir seu ideal, ele retira de sua observação tudo que nós não vemos e não conhecemos.

É uma peça fundamental no desenvolvimento e amadurecimento de sua vítima; ele é responsável pela denúncia da fragilidade e da ingenuidade próprias. Ele mostra os pontos cegos, a carência, a estupidez e a dependência de seu agredido. Expõe a vida alheia com requintes de maldade, denunciando a intimidade de sua vítima em letras garrafais numa manchete de jornal de grande tiragem. Ele a expulsa a pontapés, do paraíso idealizado.

É o nascimento forçado de uma vida adulta. É a maçã parada no meio da garganta, sufocando o grito de desespero.

Não há como, após um golpe do naipe que o inimigo aplica, uma pessoa continuar a mesma. Ele causa mudanças de comportamento e de pensamento. A inocência acaba, a ingenuidade diminui, a realidade se apresenta com todas as dimensões, distorções e dureza. Os olhos deixam de estar obnubilados pelo véu da ignorância.

Ele é um divisor de águas no processo de desenvolvimento. Não há como sair ileso de tal ataque. Nunca mais se retorna ao paraíso, ao lugar cor-de-rosa de outrora.

A reflexão verdadeira tem de ser racional. Os mal-estares sentidos não são o suficiente para uma visão clara e sensata do que está acontecendo: propiciando a mudança.

Precisamos do inimigo para sair da vida limitante e pobre do paraíso. A cegueira inocente não ajuda o amadurecimento. Diz Jung, que são os erros que nos proporcionam os fundamentos da verdade. (AION, parágrafo 429)

Temos como nos proteger do inimigo? Acredito que dificilmente. Por ser  insuspeito, nunca será descoberto antes do ataque. É silencioso, sutil, rasteiro.

A saída do paraíso proporciona uma dor descomunal. A dor da traição, do golpe arrasador é funda e gera marcas. Não há como voltar à ignorância do desconhecido, não há como voltar a uma pureza quase caricatural. É o crescimento abrupto e um novo colocar-se no mundo. É uma nova etapa da vida. O verdadeiro golpe só é reconhecido quando há uma mudança significativa na pessoa. É comum ouvirmos comentários como: “Sou uma outra pessoa agora”.

Diferentemente das vacinas, o ataque inimigo não nos imuniza de outro ataque de mesma magnitude.

Viver na ignorância – na fragilidade da inconsciência – deixa o processo de individuação pobre e pouco reflexivo. Chegar à conclusão de que o inimigo nos fez um grande bem ao nos expulsar do paraíso, tornando-nos mais conscientes e inteiros é tarefa árdua e longa. O final deste processo é o perdão, não o perdão religioso hierárquico, mas o perdão na alteridade em que vítima e algoz são partes ativas no grande processo da vida.