Depois da vida

Depois da vida

Direção – Kore Eda

Marcia Moura Coelho
Psiquiatra, analista junguiana, membro da SBPA

Nas primeiras cenas de Depois da vida um grupo de pessoas de idades as mais variadas chega a um prédio, que lembra uma escola ou repartição pública. Neste lugar são recebidas por  funcionários que lhes comunicam que todos eles morreram e estão ali, um lugar intermediário, para cumprir uma tarefa em sete dias: deverão lembrar de suas vidas, escolher um único instante desta vida para então recriá-la numa cena a ser filmada com a ajuda da equipe de funcionários. Cumprida esta tarefa, eles partirão deste lugar intermediário e a cena filmada e arquivada será a única memória que levarão desta vida ao saírem dali.

Com esta ideia como tema central da narrativa o diretor japonês Kore Eda, faz de seu filme Depois da vida uma aula de cinema e humanismo.  Fotografado com luz natural, em 16mm, quase sem música, num tratamento bem próximo ao do documentário (Kore Eda iniciou-se no cinema como documentarista) o filme mescla depoimentos verdadeiros aos dos atores do filme. Não sabemos quais depoimentos são reais, quais ficcionais. Esta, aliás, é uma questão que se coloca não só neste filme, mas em várias produções cinematográficas recentes. É um filme lento, delicado, com muitos momentos de silêncio, que na sua própria forma busca capturar a essência da experiência que vivem os personagens. A revisão existencial, a reflexão e a busca de sentido na vida exigem dedicação e quietude. Introspectivo, mas também com humor, pudor, sobriedade e dignidade, o filme vai nos mostrando faces e histórias de vida que vão não só nos revelando aquelas pessoas, mas também os vários aspectos de um país e um belo apanhado de memórias da história recente do Japão.

Neste lugar intermediário que o filme propõe, os mortos têm uma tarefa, a ser executada em 7 dias: olhar para trás, refletir, escolher e refazer ou atualizar. Uma revisão existencial, mas muito próxima e análoga à tarefa da análise. Mas por que refazer se em dado momento do filme ficamos sabendo que existem arquivos e mais arquivos com gravações de todas aquelas vidas? Por que recriar? Porque é preciso a participação ativa de cada um em sua escolha, mesmo que com a ajuda e compromisso do mediador, que também tem suas dificuldades e surpresas para revelar. Na recriação da cena, o filme de memória que irá para a eternidade, há o total envolvimento do autor da memória (misto de roteirista e diretor, ou para nós analistas, o paciente) com toda a equipe. A filmagem é artesanal, amadora, nada é perfeito, nem o filme nem as memórias, nem a vida  “fazemos o melhor possível”.

Os filmes aqui são a coleção de memórias dos mortos, recriadas entre a morte e a eternidade, numa bela alusão ao papel da memória na arte. O sagrado é a experiência humana, e, para Kore Eda, o cinema é também sagrado.  Nas belas cenas de gravações das memórias, fica claro o testemunho do diretor de sua fé no cinema e na experiência coletiva de fazer cinema em quaisquer condições. A possibilidade de transcendência existe quando cada um se apropria de suas imagens de memória, recupera sua beleza e sua arte e pode então neste instante ser eterno.