Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Direção – Michel Gondry

Aurea Afonso Caetano
Psicóloga, analista junguiana, membro da SBPA

Este filme fala de amor, relacionamentos, memória e esquecimento. Parte dele acontece na mente de Joel enquanto ele luta para preservar ao menos algumas memórias de seu amor por Clementine.

O primeiro encontro dos dois acontece em uma festa na praia. Se encontram e se reconhecem em sua diferença, nenhum dos dois está adaptado ao lugar. Foi esse o primeiro fator de atração entre os dois: a possibilidade de reconhecer no outro algo que é igual e diferente ao mesmo tempo. Joel é quieto, tímido, Clementine é impulsiva, com humores que variam como a cor de seu cabelo. O diretor do filme explora não apenas o relacionamento dos dois, mas a construção desse relacionamento em suas próprias mentes e memórias.

Os dois protagonistas passam por um processo voluntário de extinção de memórias indesejadas. Ao longo do filme vamos perceber algo já conhecido por nós analistas: todo o esquecido, não elaborado, o suprimido, o profundamente guardado, permanece de alguma forma atuando como espécie de atrator inconsciente, motivo de repetição de situações às vezes inexplicáveis, mas das quais não conseguimos nos afastar.

O procedimento de apagamento acontece de trás para diante, isto é, as memórias mais recentes são apagadas primeiro e daí para as mais antigas, numa linha do tempo reversa. A idéia é que apagando as memórias associadas, possa-se chegar ao que seria o centro emocional de cada memória, erradicando o centro, diz Dr. Mierzwiack, pode-se fazer com que toda a memória se dissolva. Esta idéia está de acordo com a forma como a construção da memória é compreendida hoje em dia.

Todo o filme é perpassado pela questão do relacionamento com a anima. Joel projeta na figura de Clementine sua contraparte feminina, envolve-se afetivamente com ela, apaixona-se e depois se afasta. No movimento que acontece dentro de sua cabeça, durante o processo de erradicação de memórias, ele começa aos poucos a se relacionar com essa figura feminina interna, sua anima. Passa pelo processo de elaboração e integração, chegando até a nascente da figura feminina para o homem- o relacionamento com a mãe.

No momento em que ele pode atender ao pedido de sua anima, agora não mais apenas projetada, é que pode acontecer a transformação. Clementine, dentro de sua cabeça sugere que ele faça algo diferente e então pede que a encontre na praia. Nesse momento, a partir de uma conexão profunda com a anima, há a possibilidade de redenção e de verdadeiro encontro no mundo real, isto é, fora da cabeça dos personagens, tanto de forma concreta quanto de forma simbólica.